António Sampaio

Médico Psiquiatra

Licenciou-se em Medicina na Faculdade de Medicina de Lisboa – Hospital de Santa Maria 

Finalizou o Internato de psiquiatria com a classificação de 19,5 valores e obteve o 1º lugar no concurso interno de provimento de assistente de psiquiatria da carreira médica hospitalar. (DR, 2ª série, nº 275 de 24 de Nov.1993)

Foi Diretor do Internato e adjunto da Direção Clínica do Hospital Júlio de Matos.

Fez o Mestrado em neurociências na Universidade de Londres e o Doutoramento na Universidade de Lisboa.

Foi Professor convidado na Escola Superior de Saúde Ribeiro Sanches e na Faculdade de Farmácia de Lisboa.

Doutorado pela Universidade de Lisboa.

Atualmente é o Diretor Clínico da Egoclinic – Clínica em Neurociências.

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Consultas Psiquiatria

Outros temas abordados por António Sampaio – intervenções e entrevistas em programas televisivos – no Canal de Youtube.

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"António Sampaio"

A PSIQUIATRIA

A psiquiatria é uma especialidade da medicina que “abrange, não somente o estudo de numerosos fatores biológicos, mas também o de muitos outros de natureza psicológica, psicossociológica e sociocultural” (Fernandes da Fonseca – 1985). Todos os que se preocupam com o sofrimento mental devem procurar ter um conhecimento sobre a natureza do Homem e sobre as sociedades, enquanto organizações comunitárias com valores e normas próprias.

Em qualquer contexto cultural existe sempre uma percentagem de pessoas que se desvia da “normalidade” ditada pelos códigos morais vigentes numa determinada cultura. Contudo, não é tanto o sair das normas vigentes que determina a existência de perturbação / doença, mas sim a disfuncionalidade que tal diferença pode acarretar. Se a diferença da pessoa, em relação aos códigos e normas maioritárias, tiver uma intencionalidade e uma coerência de trajetória pessoal e comunitária, não constitui perturbação ou doença. Muitas pessoas notáveis da humanidade revelaram-se, no seu tempo, fora das normas vigentes.

DIAGNÓSTICO

Em psiquiatria, a maioria dos diagnósticos são feitos após verificar-se um determinado conjunto de sintomas. A perturbação / doença corresponde assim a uma síndrome e não tem geralmente um substrato orgânico. Tal síndrome tem de ser suficientemente grave para provocar na pessoa uma disfunção, seja social, laboral ou outra. Por isso em psiquiatria usa-se muito mais a palavra perturbação que a palavra doença pois esta remete para uma etiologia específica como acontece, por exemplo, com a doença de Alzheimer (da área da neurologia) em que se podem identificar elementos neuroanatómicos específicos desta doença e que levam ao diagnóstico independentemente da disfunção.  

A Organização Mundial de Saúde (OMS) refere-se à saúde mental como um “estado de bem-estar no qual o indivíduo se apercebe das suas capacidades, pode fazer face ao stress normal da vida, trabalhar de forma produtiva e contribuir para a comunidade em que se insere”.

A produtividade enquanto condição de saúde mental é muito discutível. Antes o sentido de pertença em relação à comunidade e a própria coesão social vivida, em muito irão determinar a saúde mental das pessoas e da sociedade.

O apregoado primado da produtividade, do sucesso, do protagonismo e da excelência, a vários níveis dos setores sociais [a que Carlo Strenger (2012) chama “O Medo da Insignificância”], remete os mais fragilizados para o silêncio e para a solidão. Muitas pessoas, que sucumbiram e “caíram” não teriam “adoecido” noutro contexto sociocultural, diferente do que acontece nas sociedades pós-modernas onde predomina uma postura maioritária de superficialidade das relações a par com a inexistência de relações de verdadeira cumplicidade. Nessas situações é importante esclarecer a pessoa que o seu sofrimento não se trata de uma “falha” ou “defeito”, mas antes está muito ligado ao seu contexto.

QUAL A PERTURBAÇÃO MAIS COMUM?

Na consulta de psiquiatria predominam os quadros depressivos e as situações ligadas a grande ansiedade.

A depressão  é, na realidade, uma perturbação psiquiátrica muito comum, sendo que no último estudo realizado em Portugal a prevalência anual para todas as perturbações do humor era de 7,9 % (Caldas de Almeida & Xavier, 2013). Tal estudo diz-nos que, em relação a todas as “perturbações depressivas”, Portugal era o segundo país europeu com maior prevalência, só sendo ultrapassado pela França (8,5 %).

Num estudo que realizei, aquando do doutoramento, verifiquei que em relação à depressão, e no grupo observado, a maioria das pessoas referia como principais fatores precipitantes e de manutenção da sua situação de depressão, acontecimentos do foro laboral (conflituosidade laboral, falta de realização e situação de desemprego) ou do foro afetivo (conflito familiar, perda afetiva e solidão).

A falta de coesão social aos mais diversos níveis, num contexto de sociedade de mercado onde as exigências de produtividade e de eficácia são cada vez maiores, remetem as pessoas para situações de conflituosidade, de sensação de impotência e de solidão que abrem caminho à doença.

Muito frequentemente a pessoa em sofrimento psicológico verifica quão desconhecia certas fragilidades e limitações e muitas vezes apercebe-se de uma vida onde foi existindo consoante a “normalidade” que lhe era imposta e foi adiando ou esquecendo a reflexão sobre a própria existência e sobre o seu contexto social.

Acontece, muito frequentemente, que a capacidade e a oportunidade para um autoconhecimento, na nossa cultura, é frequentemente insuficiente. Nos mais jovens, os programas académicos e o “infotainment” (neologismo inglês para sistemas de informação e entretenimento) limitam o tempo necessário à reflexão sobre as vivências e a própria existência. As pessoas “inundadas” pela informação constante têm poucas oportunidades de real conhecimento.

A SAÚDE MENTAL

Penso que a saúde mental pode existir sempre que cada indivíduo for capaz de ter consciência de capacidades e limitações individuais e de contexto e se determine na procura de um equilíbrio afetivo e emocional que o leve a querer viver. Como nas sociedades pós-modernas o autoconhecimento é pouco frequente, as pessoas que nelas vivem tendem a ter menos saúde mental.

Por outro lado, o desconhecimento relativo às perturbações psiquiátricas (p.ex: depressão major ou perturbação de pânico) quer pelo próprio doente, quer pela sociedade (pelo estigma ligado às patologias do foro mental) piora a situação e leva a pessoa a sentir-se diferente e sozinha no seu sofrimento.

Em relação à perturbação mental (e ao estigma) a nossa cultura resiste à evidência científica e, em geral, as pessoas têm uma postura de evitamento do contacto com o doente e mesmo com o médico-psiquiatra.

É com o propósito de esclarecer sobre as diferentes perturbações psiquiátricas que vos sugiro que vejam os apontamentos em vídeo que se encontram no site da Egoclinic e no meu canal de YouTube